quinta-feira, 12 de maio de 2022

Mais um que partiu!

 


Li, hoje, na Revista da Armada, a nota de falecimento deste meu camarada da Companhia de Fuzileiros Nº 2. Ano de incorporação 1956, 6 anos mais antigo que eu. Quando foi destacado para a minha Companhia, ele era Marinheiro Escriturário e, juntamente, com o Sargento Parreira eram os "donos" da Secretaria. Como o seu chefe também tinha já falecido, há um par de anos, encontram-se, agora, os dois ao serviço de S. Pedro. Espero que mantenham a papelada em ordem!

Correcção - em 12 de Maio de 2022


terça-feira, 20 de abril de 2021

As alcunhas!

 Era muito difícil escapar sem uma alcunha. Por uma ou outra razão havia sempre um camarada com maior poder inventivo para "baptizar" os outros. Nomes como «Cai na merda» ou «Pilha carteiras» eram os mais feios e os seus donos não gostavam muito de os ouvir, mas havia outros mais suaves e que agradavam a quem os ouvia. Por exemplo, «Conquistador» era a alcunha de um rapaz da Chamusca que tinha a mania de engatatão e gostava de ser reconhecido como tal.


Hoje, vou falar do «Marreco» que era um Cabo Fuzileiro reconvertido que veio de outra especialidade e foi incorporado na CF2 mal terminou o Curso de Reconversão que decorreu ao mesmo tempo da minha recruta. Eu a aprender a marcar passo e manejar a Mauser e ele a aprender as teorias da guerra subversiva e fazer umas «Pistas de Lodo» para ganhar resistência, antes de ir enfrentar os turras.

Ele era marreco mesmo, tinha as costas mais arqueadas que eu já vi num homem normal. Diria que ele deve ter frequentado o ginásio e trabalhado os músculos sem o cuidado devido e, por isso, ficou com uma peitaça enorme e as costas abauladas. Gostava muito de expor o físico e mostrar a foto da namorada que tinha tatuada no peito. Só que ela já tinha dado de frosques com outro gajo qualquer e ele ficava afinado quando alguém lhe lembrava esse pormenor desagradável da sua história.

Havia vários outros filhos da sua escola que também se reconverteram em fuzileiros (e pertenciam à CF2 como ele) que já tinham recebido as divisas de 2º Sargento, mas por qualquer razão (tenho ideia que tinha recebido um castigo qualquer), ele ficou em Cabo até ao fim da comissão. Regressámos à Metrópole, em 11 de Abril de 1965, e depois de desembarcarmos, em Alcãntara, nunca mais o vi. Em 2008, quando desatei à procura dos antigos camaradas, disseram-me que ele já tinha morrido.

Como não tinha maneira de confirmar essa informação, limitei-me a tomar nota na minha lista e nos nossos vários convívios era citado na lista dos falecidos e rezávamos-lhe pela alma. Uns anos mais tarde, ao folhear a Revista da Armada, deparo-me com a notícia do seu falecimento na página da Necrologia. E lembro-me de ter acontecido o mesmo com o 2º Comandante da Companhia que aparecia como falecido numa lista da Companhia que publiquei no blog e a sua filha me enviou um mail a dizer que o pai estava vivo e de boa saúde.

Ele era o oficial mais militarista da nossa Companhia e parece que foi de propósito que se juntou ao Marreco para fazer um par de "mortos-vivos" que me vieram ensombrar a vida de organizador dos almoços anuais de convívio. Estas são histórias que não esquecem!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A primeira Companhia de Fuzileiros, em Moçambique!

 Em Março de 1961, começou a Guerra Colonial, em Angola. Em Setembro do mesmo ano, abriu a Escola de Fuzileiros, em Vale de Zebro. A ideia era fabricar fuzileiros à pressa para enviar para África e ajudar na defesa das nossas colónias. Os primeiros cursos de fuzileiros foram preenchidos com gente de outras classes, uma vez que os primeiros fuzileiros a sair da Escola de Vale de Zebro só ficariam prontos mais tarde. E os graduados dos primeiros DFE's e Companhias, por vezes, nem fuzileiros eram.

Assim aconteceu na CF2 que seguiu para Moçambique, em Outubro de 1962, em que os grumetes eram todos (ou quase) fuzileiros e o resto eram concorrentes ou seguiram mesmo na classe a que pertenciam. Os oficiais eram e de Marinha e mais 5 da Reserva Naval. Ao nível de Marinheiros, Cabos e Sargentos, havia de tudo, com uma maioria de artilheiros, com a responsabilidade das armas pesadas (metralhadoras, morteiro e bazuca), telegrafistas, sinaleiros, escriturários, manobras e carpinteiros.


Os artilheiros, por privarem mais de perto com os fuzileiros e os acompanharem nas missões a que eram obrigados, foram os escolhidos por mim para dar corpo a esta publicação.

O mais antigo de todos era o Bernardino (que podem ver na foto ao lado) que era ainda Marinheiro, mas tal como o Lúcio e o Emídio, já aguardavam a promoção a Cabo que acabou por chegar a meio da comissão.

Depois deles, havia dois 1º Grumetes que só aguardavam a promoção a Marinheiros e outros dois, mais modernos que ainda não tinham o 1º Grau e assim ficaram até ao fim da comissão que durou uns longos 30 meses.

Dos 3 mais antigos só o Lúcio é ainda vivo. O Bernardino morreu há muitos anos e o Emídio pouco antes de começar esta maldição da Covid-19. Todos os outros, tanto quanto me é dado saber, estão todos vivos. O Mourão em Coimbra, o Pereira na Cova da Piedade e o Clímaco em Peniche. Este último foi o único que provou as agruras da guerra, esteve comigo destacado no norte de Moçambique, zona do Niassa, e calcorreou muitos quilómetros de MG42 ao ombro, em perseguição dos turras da Frelimo. Felizmente, escapámos ilesos dessa aventura.


terça-feira, 6 de abril de 2021

Escapaste de boa, Mário!

 


De repente tocou o meu telemóvel. Atendi. Era o Mário. Há anos que não falava com ele e estava longe de esperar por essa chamada. Há coisas assim que nos caiem em cima, quando menos esperamos. Por sorte não eram más notícias.

O Mário é um filho da minha escola que esteve comigo na CF2 e fez apenas essa comissão, abandonando a Marinha, depois disso. Como a comissão foi feita em Moçambique e ele gostou, voltou para lá como civil. A vida não lhe correu tão bem como esperava e acabou por voltar e organizar a vida dele aqui, em Portugal.

Profissionalmente, foi bem sucedido, montou uma empresa ligada ao negócio da oftalmologia que foi de vento em popa e lhe garantiu uma vida razoável. Já no que toca à saúde, as coisas não correram tão bem, uma série de maleitas o perseguiram e os últimos anos têm sido um pesadelo. Ainda por cima, a vida familiar foi outro pesadelo, com divórcio e tudo pelo meio. Felizmente, ele tem um filho - que dá pelo mesmo nome - que o tem acompanhado sempre e para todo o lado

Há quase 10 anos que deixei de fazer o convívio anual da nossa Companhia que era a ocasião em que nos juntávamos uma vez por ano. O último foi na terra dele e sei que esteve presente, depois disso só nos temos falado pelo telefone. Hoje ligou-me para contar que, há cerca de um ano, contraiu uma pneumonia que depois degenerou numa embolia pulmonar, tudo coisas de grande gravidade, e que no fim do ano passado acabou na Covid-19. Coisa suficiente para mandar qualquer um para o outro mundo, mas ele conseguiu resistir e, sentindo-se muito melhor, telefonou-me para me informar que não chegou ainda a hora de o abater ao activo da nossa Companhia de Fuzileiros.

E logo no dia em que foi publicado que os COMBATENTES vão ficar isentos de taxas moderadoras em consultas e exames auxiliares de diagnóstico. Ainda vou aproveitar-me de alguns, disse ele!

segunda-feira, 15 de março de 2021

Eureka!

Eureka, descobri! Meio por acaso, descobri que o Arquivo Histórico da Marinha também foi digitalizado e arquivado na Torre do Tombo. Andei a dar uma volta pelos ficheiros (que estão numa desorganização total) e encontrei estas fichas com a fotos que vêem abaixo.








Trouxe apenas estas, porque me faltavam no álbum de fotos da Companhia e embora não tenham grande qualidade é melhor que nada.

Parece que também estão lá as listas de todos os recrutamentos e gostava de encontrar o meu, mas ainda o não consegui. Tenho que lá voltar e procurar mais um pouco.


sexta-feira, 12 de março de 2021

Os mais velhotes!

 


Começo por dizer que não tenho notícias do 2º Comandante, Ilharco de Moura, que na última informação que me chegou através de uma sua filha (não sei se única), estava bem de saúde e morava em Algés. Também não sei a idade dele, mas considerando que era 2º Tenente, quando partimos para Moçambique, em 1962, deveria ter, no mínimo, 28 anos, ou seja mias 10 anos que eu. Como eu já fiz 77 ele deve andar pelos 87. Os outros, com números de matrícula na Armada abaixo de 10 milhões (como dizíamos na brincadeira) são o Mar. Manobra J. Gomes, o Sargento Veloso e o Cabo Sinais J. Milheiro.

Dos 3 acima mencionados, o Gomes está no Lar da Santa Casa do Barreiro, o Veloso foi, muito recentemente, internado no Lar das Forças Armadas, em Runa, e o Milheiro morava na Praia de Mira, segundo as últimas notícias que me chegaram, já faz uns anitos.

Como todos eles seguiram a carreira militar - o Gomes é Sargento Ajudante e os outros dois chegaram a 1º Tenente - serei alertado pela «Revista da Armada» se algum destacar sem meu conhecimento, coisa que espero demore ainda muitos anos e que eu esteja cá para relatar o ocorrido. Mesmo assim, folheio com todo o cuidado a Revista, cada vez que é publicada, com receio de ver lá aparecer um desses nomes. É que a idade não perdoa, é um facto indiscutível.

Do grupo seguinte, numeração entre os 11 e 13 milhões, constam 7 nomes, como podem ver na lista acima, de quem, há algum tempo, não tenho tido notícias. Mas, se eles nunca se deram ao trabalho de contactar comigo, fui sempre eu que andei atrás deles, por aqui me fico, à espera que algum conhecido ou amigo deles me faça chegar a triste notícia do seu "destacamento".
E, por hoje, é tudo. Longa vida aos resistentes que nem o Corona Vírus conseguirá abater !!!


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Moçambique, os Fuzileiros e eu!

 


Este ano de 2021 ainda aqui não escrevi nada, de modo que é altura de o fazer para dar um sinal de que ainda não foi abandonado. Como se dizia no tempo da Guerra do Ultramar, um fuzileiro nunca deixa para trás um camarada ferido ou morto pelo inimigo. Por conseguinte, eu também não quero abandonar este blog, enquanto me restarem forças para o carregar comigo.

A lista que vêem acima menciona todas as Companhias de Fuzileiros que operaram em Moçambique. Encontrei-a num livro escrito em inglês e recortei-a, porque me interessam as datas de início e fim de comissão de cada uma delas. Eu fiz parte da CF2 e CF8 e confirmo que as datas estão correctas, muito embora a CF2 tenha ido de avião e a data mencionada se refira ao último pelotão apenas, pois o primeiro pelotão foi enviado um mês mais cedo (aproximadamente).

Na primeira comissão, fui destacado para o Niassa, de Setembro de 64 a Janeiro de 65 - quatro meses bem contados . em que tive o meu baptismo de fogo. Na segunda comissão passei metade do tempo no sul (Radionaval da Machava) e outra metade no Niassa, participando em várias operações como guarda-costas dos Destacamentos envolvidos em operações no mato. No conjunto das duas Companhias tivemos apenas um ferido ligeiro que apanhou com um estilhaço de uma mina

Foram quase cinco anos de Moçambique, na maior parte do tempo nada teve a ver com guerra, o que para um jovem entre os 18 e 24 anos é uma espécie de férias num país tropical para lembrar até morrer.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

É triste dizer adeus!

 


Mais um dos nossos camaradas da CF2 que fez as malas e abalou para a outra dimensão. Usei o verbo "abalar" de propósito, pois o Silveira era alentejano e na forma de linguajar das gentes do Alentejo é assim que se diz partir. E partiu ao fim de muitos anos de sofrimento, pois já lá vão 28 anos desde que sofreu o AVC que lhe fez a vida num inferno. Sofreu e fez sofrer a sua família e, de certo modo, é um alívio poder dar-vos esta notícia, finalmente ele pode descansar em paz.

Eu sei que ele ainda passou por Angola, no período da Guerra do Ultramar, e acho que também no período pós.independência, mas não conheço o seu percurso, desde que regressámos de Moçambique, em 1968. Fizemos duas comissões juntos, na Companhia 2 (primeira comissão 62/65) e na Companhia 8 (primeira comissão 65/68). Fomos bons amigos e partilhamos muitas aventuras, principalmente nos 4 meses que passámos no Niassa, quando rebentou o "Terrorismo", em Moçambique.

O Silveira, o Barbosa e o Valter formavam um grupo inseparável dos meus maiores e melhores amigos. O Silveira foi, agora, juntar-se ao Valter que tinha partido, há cerca de 2 anos, ficamos para trás o Barbosa e eu, veremos até quando. E quando eu abalar não haverá quem faça o relatório dos acontecimentos relacionados com a CF2, a primeira Companhia de Fuzileiros a chegar a Moçambique, em Outubro, Novembro e Dezembro de 62 (já que foi enviada por avião, um pelotão de cada vez e conforme as disponibilidades da Força Aérea Portuguesa.

Descansa em paz, Silveira !




sábado, 10 de outubro de 2020

Mais um que partiu!

 


Em Setembro, não saiu a Revista da Armada. Por causa das férias de verão a que todos têm direito, há sempre um número que não é publicado, umas vezes calha em Agosto outras em Setembro, como aconteceu este ano. Só hoje tive acesso à de Outubro e tenho procurado por ela todos os dias, desde que começou o mês de Outubro.

Verificada a lista dos falecidos, lá encontrei um dos meus camaradas da CF2, o Baltazar. Com alguma surpresa li que atingiu o posto de Sargento-Mor, enquanto que eu pensava (alguém me informou mal) que ele tinha chegado a 1º Tenente. Para o que interessa pouco importa, pois no caixão divisas ou galões têm o mesmo valor e lá em cima nada disso conta.

Na hora de lhe dizer adeus e desejar que descanse em paz, vem-me à memória o momento em que, nos primeiros tempos da nossa estadia na Machava, ele comprou uma cautela da lotaria que saiu premiada. Juntou os amigos mais chegados - como o Manuel Matias, por exemplo - e lá foram a Lourenço Marques levantar o prémio e festejar o acontecimento. Houve lugar a fotografia e tudo, da qual guardo uma cópia no meu álbum particular.

Ele era um graduado e eu um simples grumete. E como não fazíamos parte do mesmo pelotão não privamos muito e são poucas as recordações que tenho dele. De qualquer modo, venho cumprir o dever que a mim próprio impus de registar o seu óbito neste blog, na tentativa de que a notícia chegue até aos camaradas da Companhia e outros que o possam ter conhecido.

Descansa em paz, camarada Baltazar!


 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Lembranças d'outrora!

 


Hoje, esbarrei nesta foto de 1963 e fiquei a pensar como é bom reconhecermos as caras dos amigos e saber algum pormenor da sua história passada ou presente. A foto faz parte do álbum de recordações do Rafael, o primeiro à esquerda, em pé, e por ele vou começar.

Rafael - Não era do meu pelotão da recruta, mas, uma vez por outra, juntávamos-nos nas aulas práticas, de infantaria, educação física e outras. Um certo dia, o professor de boxe, Ferraz de seu nome, escolheu-o para meu adversário numa das suas aulas. Eu tinha pouco jeito para o boxe, ele ainda menos, corria à minha volta mexendo os braços como uma ventoinha tentando acertar-me na cara. Uma autêntica paródia, o Ferraz vinha ensinar-lhe como colocar os braços, com os cotovelos a proteger o estômago e as luvas a cara, mas mal o largava lá ia ele feito ventoinha. Foi comigo para Moçambique, em 1962, e depois para o Niassa provar um pouco da guerra da Frelimo, em Setembro de 1964. Mais tarde eu vim-me embora para a vida civil e ele continuou a carreira na Marinha e é, hoje, um respeitável Sargento-Mor reformado. Com os nossos convívios e o telefone vamos-nos mantendo em contacto.

Alturas - Ao lado do Rafael está o Joaquim Carvalho, por alcunha o Alturas, por causa dos seus cento e noventa e tal centímetros da dita. O seu número de matrícula era imediatamente abaixo do meu e por isso andámos sempre lado a lado, na formatura, na caserna, na mesa do refeitório, etc.. Eu fiz duas comissões em Moçambique e ele não me largou, foi sempre atrás de mim. Era era muito amigo do Manel Enteiriço e eu também, pelo que vivemos umas quantas aventuras em conjunto. Eles os dois seguiram a carreira militar e ambos chegaram ao posto de sargento. Eu saí e só voltei a encontrá-los nos convívios que comecei a organizar, em 2008.

Bustos - Seguindo sempre para a direita, temos o Bustos que usava o nome da sua terra como alcunha, pois o seu nome verdadeiro era (e ainda é, suponho eu) Lino Santos. Não éramos muito chegados, tínhamos interesses divergentes, eu passava o meu tempo a correr atrás das gajas, enquanto ele só corria atrás da bola. Chegou a jogar num dos grandes clubes de Lourenço Marques, nos anos de 1963/1964. Perdi-lhe o rasto até ao nosso convívio de 2008, na Serra D'Aire.

João Silva - Custou-me a reconhecê-lo na fotografia, não me lembro de grande coisa da sua vida na CF2 e o que sei fora dela foi ele que me contou nos inúmeros telefonemas que fiz para o tentar convencer a participar nos convívios, o que nunca consegui. Contou-me que veio embora mais cedo que o resto da Companhia (com a velha desculpa de estar doente) e que depois desertou por não o deixarem concorrer a enfermeiro que era o seu sonho. Andou fugido, esteve preso, mas depois acabou por entrar e completar o Curso de Enfermagem. Não seguiu a vida militar, talvez por ter incorrido, como eu, no Artigo 62, e se não estou em erro, nunca exerceu Enfermagem na vida civil.

Monteiro (Joaquim) - Nasceu num concelho do interior beirão, Almeida, que vive mais em função de Espanha que de Portugal. Por causa da sua maneira característica de pronunciar os "S", ganhou a alcunha de Xexenta e Xinco (que era o seu número de matrícula). Havia mais um filho da sua terra na CF2, o Sargento Enfermeiro Monteiro (curioso, mesma terra e mesmo apelido, deviam ser todos primos naquele cantinho de Portugal). Para não atraiçoar o seu passado, foi sempre agricultor e vive naquela zona entre Azeitão e Setúbal, onde se cultiva um vinho especial que faz animar a malta. É um ferrenho adepto do PCP e não há Festa do Avante sem ele. Pensei nele várias vezes na passada semana.

Sérgio Rego - Ao lado do Monteiro está o Rego, amigo e quase conterrâneo do Rafael, ambos transmontanos da zona de Vila Flor. Ambos foram para a Guiné depois de regressarem de Moçambique e também ambos seguiram a carreira da Marinha e se cruzaram muitas vezes, ainda hoje são vizinhos, na margem sul do Tejo. O Rego tirou a carta de condução na Guiné e fez disso a sua profissão, a partir dessa altura. Acho que não me engano se disser que ele explorou uma Escola de Condução nas horas vagas que a Marinha lhe deixava. Arranjou uma namorada guineense e por lá fez várias comissões para se não separar dela. Depois de passada essa "doença", casou-se e descasou-se várias vezes e transformou a sua vida num inferno por causa disso. Agora já não deve pensar nisso, pois a saúde é pouca e vai-se arrastando, a caminho do cemitério, consumido por um cancro na próstata que não lhe dá descanso.

Ai'Cone - Em dialecto Xangana (ou Landim, como nós dizíamos) esta palavra significa "Não" e era a o que mais ouvíamos, quando tentávamos encontrar parceira para aliviar o "stress". Ele achou-lhe piada e passou a vida a repeti-la, de tal modo que lhe ficou de alcunha. De nome ele era o mais pobre de toda a Companhia, tinha dois nomes próprios, Manuel Joaquim, e nenhum apelido. Costumava dizer que era tão pobre que nem apelido tinha, mas usava o de Raimundo que, segundo ele, o seu pai também usava (sem ser seu). Pois, o Raimundo ficou sobejamente conhecido por ter levado um tiro de G3 numa coxa, disparado por um camarada que estava de sentinela com ele e se pôs a mexer no gatilho, esquecendo os cuidados que é preciso ter nessas ocasiões. No nosso convívio de 2011, na Mealhada, consegui juntar os dois à mesa para fazerem as pazes e arrumar o assunto definitivamente. Havia quem temesse que ele pudesse fazer uma cena, mas correu tudo pelo melhor. Grande negociante de móveis, na zona de Tomar, também ele anda preocupado com a sua próstata que não o deixa dormir descansado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O «Velho» Gomes!

O Gomes e eu fomos para Moçambique, no último trimestre de 1962, eu tinha apenas 18 anos e ele (pelo menos) o dobro da minha idade. O barrigudo Marinheiro Manobra, alentejano da Amareleja, já não tinha muito cabelo e talvez me parecesse mais velho do que aquilo que era na realidade. Mais ano, menos ano, deve andar na casa dos 95, uma bonita idade para qualquer cristão que se preze.
Sabia que ele estava internado num Lar de Terceira Idade, no Barreiro, mas não sabia qual. Ontem dei-me ao trabalho de tirar as coisas a limpo, liguei para o Lar de S. José - que tem aparecido nas notícias por lá terem morrido 4 utentes infectados com o novo vírus - e perguntei se me sabiam dar notícias dele. Disseram-me que não estava ali, mas sim noutra dependência da Santa Casa da Misericórdia e que podiam transferir a chamada para lá.
Uns minutos depois ouvi a voz de alguém que disse:
- Estou, quem fala?
Eu não sabia, mas era o próprio Gomes, a quem tinham posto ao telefone, a pedido da Recepção. Surdo como uma porta, além do Alzheimer que o aflige, desde há alguns anos, foi impossível entendermos-nos. Eu falava, mas ele não ouvia e acabou por passar o telefone a alguém que estava ao seu lado e que me deu todas as informações que eu pretendia.
Fiquei contente por saber que ele vai vivendo a sua vida relativamente bem, come pela sua mão e trata da sua higiene sem ajuda de ninguém. Ele tinha casado, em segundas núpcias, com uma mulher mais nova que ele, mas já ficou viúvo de novo. Resta-lhe apenas o filho que é Sargento Enfermeiro Reformado da Marinha e o visita com muita regularidade.
Ele era o segundo mais velho da nossa Companhia, o primeiro era Sargento Parreira que já morreu, há dois ou três anos, e agora ficou como Nº 1 na fila de embarque para o outro lado. Mas nem sempre é o Nº 1 o primeiro a embarcar.
Longa (e boa) vida, camarada Gomes!

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Apagou-se a luz!

Prometi que viria aqui trazer qualquer notícia referente ao pessoal da nossa Companhia, mas como isso se resume à notícia do falecimento de mais um camarada, perdeu o interesse e se alguém passa por aqui, vai-se embora sem dizer nada. Também para ler notícias tristes, não vale o esforço e não os critico por isso.
Penso, por vezes, se não seria melhor desistir deste dever que a mim próprio impus, mas, por outro lado, penso na alegria que seria fazê-lo até todos terem partido deste vale de lágrimas e deixando a notícia da minha morte sem publicação. Havia uma dúzia de camaradas que eram mais novos que eu, mas não muito, e alguns já foram andando na minha frente. Estou a lembrar.me do Valter, por exemplo, que já partiu há algum tempo.
Aproveito para deixar uma palavra aos mais entradotes na idade, desejando que continuem na luta, enquanto a qualidade de vida for aceitável. Estão neste caso o Joaquim Gomes que já ultrapassou os 90 e o Albertino Veloso que está quase a atingi-los. Para eles uma longa (e boa) vida!

domingo, 3 de maio de 2020

Dever é dever!


Estar doente, durante anos a fio, é pior que estar morto, penso eu, embora acredite que haja quem não pense do mesmo modo. O nosso camarada Artur faleceu, há pouco, soube-o através da Revista da Armada. Ele sofria de uma doença incurável, há muitos anos, não reconhecia ninguém e era tratado pela mulher e uma filha, tal e qual como se fosse uma criança. Um tipo de vida que não desejo a ninguém e acho que devemos congratular-nos por, finalmente, Deus se ter dignado levá-lo para junto dele.
Que descanse em paz!


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Amigos do peito!


Hoje, passei algum tempo a arrumar as fotos no meu novo computador W10 e dei com esta que me traz grandes lembranças. Partilhamos 6 anos de Marinha, 5 dos quais em Moçambique, e fizemos uma amizade que prevaleceu através dos tempos. Dos três o que tinha mais saúde era o Valter (ao centro da imagem) e foi o primeiro a despedir-se deste mundo. O Silveira anda, há bastantes anos, agarrado às muletas, mas lá se vai aguentando. O Barbosa foi operado a um tumor nos intestinos, deram-lhe dez anos de vida e já passaram vinte. Se não me ponho a pau, ainda embarco eu antes deles que são os doentes. Quem anda agarrado às muletas, agora, sou eu, não por causa de um AVC, como aconteceu com o Silveira, mas por conta da artrite que vem com a idade.
Aguentar firme é a palavra de ordem!

sábado, 18 de janeiro de 2020

Como o tempo passa!

Já lá vai quase um mês que passei por aqui para desejar Boas Festas de Natal! E vendo bem, poucas vezes entrei aqui durante o ano passado, o que não deixa de ser boa notícia, uma vez que este blog se tornou um repositório de notícias fúnebres. Assim, quanto menos melhor!


Menos de uma publicação por mês é mau, por aqui fica já a de Janeiro para marcar o terreno. E ilustrada por uma foto que mostra duas coisas que me deixaram saudades. A primeira é um embondeiro do Niassa que ficou lá muito para trás na história da minha vida. E a segunda um amigo algarvio que ainda vive em Loulé, mas há cerca de 10 anos que não vejo. E por este andar não verei mais, pois ele não sai de lá e eu não saio daqui. 

domingo, 22 de dezembro de 2019

Feliz Natal 2019 !!!


A todos os camaradas da CF2 desejo um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de
coisas boas, a começar pela saúde que é o bem mais caro de todos.

sábado, 19 de outubro de 2019

Partiu o nosso herói da Índia!


Estávamos pertinho do Natal, de 1961, quando as tropas indianas invadiram Goa e acabaram com a presença portuguesa que durava há quatro séculos e meio. Houve mortos e feridos, de ambos os lados, e houve prisioneiros também. Prisioneiros que muito se receou que nunca viessem a ser libertados, mas felizmente, alguns meses mais tarde foram repatriados para a Metrópole portuguesa.
Um desses prisioneiros era o FRANCISCO MATILDE EMÍDIO que em Outubro de 1962 foi incorporado da nossa Companhia e seguimos juntos para Moçambique.
Passamos 30 meses juntos na bela Lourenço Marques e perdemos o contacto depois de regressarmos a Lisboa, em Abril de 1965. Voltamos a ver-nos quando comecei a organizar os convívios do pessoal da Companhia. Era uma verdadeira festa cada vez que nos encontrávamos.
Agora que recebeu a guia de marcha para o seu último destacamento, não vou poder voltar a vê-lo, mas fica para sempre uma boa recordação do tempo que passámos juntos. E não tardará muito que todos os camaradas da Companhia estejam de novo juntos na outra dimensão.
Até breve, Emídio, e que Deus te guarde num bom lugar!


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Já somos menos de 100!

Estava a ver se terminava o ano de 2019 sem dizer adeus a mais nenhum membro da Companhia, mas as minhas expectativas saíram goradas. O camarada António da Silva Pires (3920.55) recebeu a guia de marcha e partiu destacado para outras latitudes.
Por causa das férias de verão, a Revista da Armada sai em datas que não são habituais e, por essa razão, tinha-me passado a leitura do mês de Setembro. Isto quer dizer que o Pires já deve ter falecido em Agosto, ou talvez antes, mas isso já não tem qualquer importância. Soube também, através da publicação do óbito, que atingiu o posto de 1º Tenente, o que para um homem da idade que ele tinha, quando se juntou aos fuzileiros, é obra. Incorporado na Armada em 1955 deve querer dizer que nasceu em 1934, portanto já somava uma bonita idade, 85 anos.
Nem todos chegaremos lá, no meu caso duvido seriamente. Ele esteve connosco no Convívio de 2009, no Paião, e depois disso nunca mais o vi. Ele também não era muito dado a convívio social, preferia-se só e lá com as coisas dele. Cada um é como é e ele era assim.
Que Deus lhe reserve um bom lugar, enquanto espera por nós todos, camaradas da CF2, que não andaremos por cá muitos mais anos.

Leia-se em 30 de Setembro de 2019

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Bom Ano Novo!

Chegamos ao dia 1 de Janeiro de 2019. Que seja um Bom Ano para os camaradas da Companhia 2 que ainda continuam no activo.
Em 2018, tanto quanto me é dado saber, visto que perdi o contacto com alguns camaradas, faleceram 2 camaradas nossos, O David (Gato) e o Valter (Fragatinha). Ambos padeceram de doenças oncológicas e foi isso que lhes abreviou a existência.
Paz para eles que já partiram e saúde e longa vida para nós que cá continuamos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mais um desertor!


Partiu, hoje, do nosso convívio o Valter, amigo de muitas aventuras que me levou para Moçambique a fazer uma nova comissão, coisa que não estava nos meus planos. Não sei o que teria sido a minha vida, se não tivesse concordado com ele e acompanhá-lo durante mais dois anos.
Ele tinha apenas 20 anos de idade e deixado em Moçambique alguns amores. Do meu lado havia apenas o amor por aquela terra, onde passei de rapaz para homem. Lá completámos 6 anos de vida em comum e depois disso ele ficou e eu vim-me embora. Sempre a mesma história, ele tinha ainda alguns amores mal resolvidos e eu nada que me prendesse àquela terra.
Desde essa data, Março de 1968, perdi o contacto com ele e só voltei a vê-lo em 2003, durante o Convívio dos Filhos da Escola desse ano, em Santo Tirso. A partir daí, quase sempre aparecia nos convívios anuais organizados por mim, até há dois anos, em que uma doença do foro oncológico o reteve em casa.
E hoje disse-nos adeus e passou-se para a outra banda, mas não tardará muitos anos que a Companhia esteja toda junta de novo. Paz à sua alma, que descanse em paz!